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O que aprendi com Jane Austen em 2 anos e 6 livros

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Em novembro de 2013, eu e Thais alugamos um apartamento em São Paulo. Nos mudamos para cá um mês antes para que ela começasse sua carreira profissional, para que déssemos continuidade ao nosso noivado e começássemos nossa vida juntos. Nessa época, eu dei para ela, de presente as Obras Completas de Jane Austen no texto original, em inglês. Decidimos, então, que leríamos os seis romances publicados por ela juntos, em voz alta um para o outro.

Foi o início de uma jornada que duraria quase dois anos.

Para quem não conhece, Jane Austen foi uma escritora inglesa que viveu entre 1775 e 1817. Ela escreveu romances, na época um tipo de literatura criticado por homens que consideravam a ficção inferior à não-ficção, e lido, em sua maioria, por mulheres. Hoje, seus livros são criticados por homens também, mas por serem românticos demais: em todas as suas histórias acompanhamos heroínas que precisam vencer os desafios da vida, crescer como pessoa para conseguir encontrar o amor de suas vidas e alcançarem a felicidade eterna.

Eu fui contra a corrente e me apaixonei por ela quando assisti a adaptação para o cinema de seu livro mais famoso: Orgulho e Preconceito (2005). Para mim, o filme capta a sutileza do sarcasmo, da ironia, da comédia e dos sentimentos que permeiam os personagens. Já assisti ao filme tantas vezes que nem sei dizer. Inclusive, a primeira vez que vi este filme estava com a minha esposa, então namorada, muitos anos atrás.

Por isso, quando resolvemos ler todos os livros juntos, queríamos fortalecer ainda mais o papel da Jane Austen em nossas vidas e emnosso próprio romance. Nesses dois anos em que lemos os livros um para o outro, passamos lindas noites juntos, animados com belas passagens e citações que já conhecíamos de cor. Aprendi muito com cada uma das heroínas de Jane, e me apaixonei por muitas delas. Mas também aprendi muito com seus amados parceiros, e gostaria de compartilhar aqui 6 bons aprendizados e motivos para vocês pegarem um livro e começarem a ler agora mesmo.

Razão e Sensibilidade (1811)

O primeiro livro de Jane Austen foi Sense and Sensibility. Apesar de ela ter escrito quando ainda era muito jovem, ele foi publicado em 1811 e assinado por “Uma Dama” (“A Lady”), já que havia uma série de preconceitos contra mulheres escritoras. O livro vai contra a crença geral de que Jane só escreve histórias românticas de casais apaixonados, pois seu foco principal é o relacionamento de duas irmãs, Elinor e Marianne Dashwood. Como o título indica, a primeira (e mais velha) é racional e a segunda é puro sentimento. Cada uma passa por suas próprias dificuldades, fortalecidas por essas características marcantes, até encontrarem a felicidade em seus casamentos.

As conversas entre as duas irmãs são ótimas e mostram bem como cada uma pensa sobre a melhor maneira de agir — Marianne sempre achando que sua irmã não sente nada, e Elinor achando que sua irmã é exageradamente entregue aos seus sentimentos. Aqui, os homens têm papéis importantes, mas não principais. Ainda assim, a situação de cada um é bem diferente e marcante. Edward se sente obrigado a manter um noivado com uma moça por honra, já que a levou a acreditar no relacionamento, por mais que ele não sinta a mesma coisa. Willoughby, jovem, é obrigado a abdicar de seu amor real e a se casar com outra para garantir sua fortuna. Coronel Brandon, mais velho e viúvo, se vê voltando no tempo e se apaixonando pela vivacidade e inocência de uma mulher muitos anos mais nova.

Entre esses, Willoughby é o que tem os momentos mais angustiantes. Próximo ao final do livro ele reaparece e mostra todo o seu arrependimento por abrir mão de seu verdadeiro amor. Mas em uma sociedade em que um casamento mal escolhido pode levar à pobreza eterna, era bastante comum que se casasse por dinheiro. No final, quem poderia julgá-lo, se não ele mesmo, por se render a esta situação?

Orgulho e Preconceito (1813)

Favorito da galera, Prinde and Prejudice conta a história de Elizabeth Bennet, uma jovem relativamente pobre que é cortejada pelo nobre e rico Sr. Darcy. Entretanto, os dois precisam vencer as barreiras do orgulho e do preconceito (lógico) antes de se entregarem ao amor mais lindo que esse mundo já viu.

Jane Austen sempre teve um humor muito ácido quanto à sociedade em que vivia e que observava, e isso é particularmente claro aqui. O jeito que ela descreve os orgulhosos membros da nobreza, as mentes mais vazias das irmãs mais novas de Elizabeth e a falta de vergonha de sua mãe mostram como podemos encontrar críticas em qualquer nível social.

Uma das glórias do livro é acompanhar as mudanças de Darcy. Mesmo com todo o orgulho de sua situação social, ele se vê incontrolavelmente atraído pela menina pobre e pouco prendada, mas de espírito e pensamentos livres. Ele luta contra suas dificuldades em se relacionar com estranhos e com outras classes para se aproximar dela, e tem seu primeiro pedido de casamento negado veementemente. Daí em diante, vemos como ele utiliza cada uma das críticas de Elizabeth para se tornar uma pessoa melhor e digno de ser marido dela. Uma verdadeira lição de vida: não somos perfeitos, nem imutáveis. Muitas vezes, para encontrar nossa felicidade, precisamos abrir mão de partes problemáticas das nossas vidas e nos redimir dos erros que cometemos.

Mansfield Park (1814)

Este é outro livro que não foca exatamente o relacionamento do possível casal principal, Fanny Price e Edmund Bertram. Na verdade, é a história de Fanny e Mansfield Park, domínio da família Bertram. Levada para lá quando criança, Fanny escapa de uma criação pobre e aprende o valor de ter condições de estudar e desenvolver seu pensamento crítico. Em certo momento, ela é forçada a voltar para casa e, talvez mais do que saudade de Edmund, ela sente falta da casa em que foi criada.

Edmund, por outro lado, só acaba com Fanny porque seu primeiro interesse amoroso se recusa a se casar com um mero clérigo, que é o seu cargo. Porém, há muito o que aprender com ele. Ele recusa as diversas investidas de Mary Crawford, que tenta forçá-lo a usar suas influências para conseguir algo mais, um cargo político, um emprego melhor. Ela ignora o fato de que Edmund sempre quis ser um clérigo. Ele defende até o fim seus valores e a missão que ele definiu para si mesmo e, assim, aceita vê-la partir. Hoje, cada vez mais vemos a importância de defender nossos valores e nossa missão, como algo imprescindível para que consigamos alcançar nossos objetivos de vida. Edmund foi fiel a ele mesmo até o fim, e foi recompensado com a vida que planejou, com uma mulher que sempre o apoiou nesse caminho.

Emma (1815)

Talvez o mais difícil da bibliografia de Jane Austen, Emma é também o mais longo. Conta a história de como a Senhorita Emma Woodhouse deixou de ser uma criança que brinca com a vida dos outros e se tornou uma mulher consciente de seus erros e com a sabedoria para discernir os novos caminhos que ela precisava tomar navida para ser digna de seu apreço próprio, e do apreço de seu pai e de seu amigo mais próximo, o Senhor Knightley. Knightley, como um homem mais velho, aprecia toda a vivacidade de Emma, mas é talvez a única pessoa do livro que percebe os problemas de suas atitudes infantis. Assim, ele é também o único a ter a coragem de criticá-la quando ela faz coisas que prejudicam pessoas próximas a ela. Apesar de seu papel ser essencial para que Emma se dê conta de como ela machuca as pessoas ao seu redor, o papel do homem aqui, mais uma vez, é bastante secundário.

O foco principal do livro é no relacionamento de Emma com ela mesma. O desenvolvimento de seu autrocontrole e autoconsciência formam o caminho para que ela se torne uma pessoa boa. A apreciação da presença de Knightley em sua vida se dá em momento muito avançado no texto e como uma consequência do crescimento de Emma durante o livro.

Aqui, porém, cabe lembrar que Kightley nunca se rendeu aos charmes infantis de Emma, como acontecia com outros personagens próximos a ela, e ele foi o único capaz de mostrar a ela os problemas de viver do jeito que ela vivia. Na verdade, quem de nós não precisa de uma pessoa sensata por perto para nos chamar atenção quando fazemos algo errado? Knightley foi fiel à sua amiga, muito mais que os demais, e se mostrou um homem de alto valor e respeito.

A Abadia de Northanger (1818)

O mais curto dos seis livros, Northanger Abbey é uma publicação póstuma e conta a história de Catherine Morland, uma jovem que acaba de ser introduzida na vida social em Bath (cidade badalada no inverno inglês do século XIX) e se vê envolvida com diversas pessoas preocupadas em garantir uma boa situação financeira. Escrito ainda na juventude de Jane Austen, o livro mostra a animação de Bath e como os jovens apreciavam o dia a dia de bailes e encontros. Por outro lado, a personagem principal aprende das piores formas que nem todos são o que parecem.

Em Bath, vemos pessoas que só querem se casar se garantir ótimas condições financeiras, pessoas que só querem se aproveitar das outras, que fazem outras desrespeitarem amigos e familiares, que maltratam seus filhos… No meio disso tupo, Catherine encontra Henry Tilney, um homem disposto a perdoar os erros que ela comete, que não se preocupa com sua fortuna, que consegue ver o lado bom de situações difíceis e que está disposto a lutar contra as vontades opostas para estar com a mulher que ele ama.

Talvez o destaque de Tilney seja ele entender que seu pai é uma pessoa rancorosa e que puxa para baixo as pessoas ao seu redor, mas que acredita estar fazendo o seu melhor. Tilney entende isso, e respeita seu pai, mas não deixa de contrariá-lo na hora de buscar sua própria felicidade.

Persuasão (1818)

Este é o nosso livro, meu e de minha esposa. Também publicado postumamente, Persuasion foi escrito muitos anos depois de Abadia de Northanger e mostra uma Bath diferente. A personagem principal, Anne Elliot, já é mais velha e enxerga a cidade como um lugar algo sombrio, em que as pessoas vão para se gabar de suas situações na vida e explorar os outros. Há muito pouca positividade. Ficam de lado os bailes e a alegria dos jovens e entra em cena a melancolia de uma mulher frustrada na família e no amor.

Anne, quase 9 anos antes do início do livro, foi aconselhada a abandonar um relacionamento com o jovem Frederick Wentworth por sua falta de dinheiro e de posição social. O livro começa quando Frederick retorna para aquela região da Inglaterra e os dois voltam a se lembrar do passado e a pensar em tudo o que eles abdicaram lá atrás. Essa é a nossa história porque, assim como Anne abriu mão de Frederick, eu terminei um namoro de mais de dois anos com a (agora) minha esposa anos atrás. Ficamos cerca de seis anos separados antes de nos encontrarmos novamente e assumirmos que o que queríamos mesmo era ficar um com o outro.
A beleza de Persuasão está exatamente em acompanhar como esses dois personagens cresceram com o passar dos anos e agora enxergam tudo com um olhar mais maduro e sensato. Quando admitem que ainda não se esqueceram do antigo amor, cada um faz o que está ao seu alcance para se redimir dos erros passados e afirmar a vontade de reconquistar tudo o que havia sido perdido.

Wentworth é um dos mais queridos homens de Jane Austen exatamente porque ele não guarda verdadeiros rancores e quando se vê diante da possibilidade de finalmente ser feliz com a mulher que ama, ele deixa de lado todo o seu orgulho sem pestanejar e corre para os braços dela. Ele ainda faz isso através de uma carta escrita às pressas, com medo de não ter um tempo à sós com ela e perder a oportunidade. Essa carta tem algumas das frases mais carregadas de emoção da carreira de Austen e derrete o coração de seus leitores há quase dois séculos:

“Não consigo mais ouvir em silêncio. Tenho de falar com você com os meios que estão ao meu alcance. Você trespassa a minha alma. Sou agonia e esperança. Não me diga que é tarde demais, que tais preciosos sentimentos se foram para sempre. Eu volto a me oferecer a você, com um coração ainda mais seu do que quando você quase o partiu, oito anos e meio atrás. Não ouse dizer que os homens se esquecem mais rápido do que as mulheres, que o amor deles morre mais cedo. Só a você tenho amado. Posso ter sido injusto, fui fraco e ressentido, mas nunca inconstante. Só por você vim a Bath. Só por você eu penso e faço planos. Será que você não viu? Será que você não conseguiu entender meus desejos? Não teria esperado nem estes dez dias, se tivesse podido ler seus sentimentos, como acho que você entendeu os meus. Mal consigo escrever. Estou a cada instante ouvindo coisas que me esmagam. Você abaixa a voz, mas posso distinguir tons nessa voz que aos outros passariam despercebidos. Criatura excessivamente boa, excessivamente excelente! Você nos faz justiça, sem dúvida. Acredita que o verdadeiro afeto e constância existam entre os homens. Creia que tal afeto é mais do que fervoroso e mais do que constante em F.W.
Tenho de ir, incerto de meu futuro; mas vou voltar pra cá ou acompanhar o seu grupo, assim que possível. Uma palavra, um olhar será o bastante para decidir se entrarei na casa do seu pai esta noite ou nunca mais.”

Quando chegamos a essa parte do livro, podemos sentir as mãos do desespero amassando o coração de Wentworth, que não aguenta mais viver sem saber se Anne ainda pensa nele como ele pensa nela. É o auge do romântico. Em inglês, talvez seja ainda mais marcante:

You pierce my soul. I am half agony, half hope. Tell me not that I am too late, that such precious feelings are gone for ever. I offer myself to you again with a heart even more your own than when you almost broke it, eight years and a half ago.

Eu e Thais

Nós antes e depois

Nós antes e depois

Me arrepio com a leitura, porque eu mesmo fiz algo muito parecido. Ao encontrar Thais muitos anos depois de nos separarmos, não me segurei, e disse para ela o quanto eu ainda a admirava e que ela era a mulher com quem eu gostaria de me casar. Afirmei meus erros e o nosso amadurecimento nos últimos anos, e cruzei os dedos para que, como Anne Elliot, ela ainda visse alguma esperança para nós dois. Isso foi na virada para 2012. Na virada de 2013 estávamos noivos e, na virada para 2014 comemorávamos o início de nossa vida morando juntos.

Os homens de Jane Austen me ajudaram a ver características importantes que devemos ter em nossos próprios relacionamentos. Não é à toa que eles são tão adorados por seus leitores. Com eles, aprendi a não abandonar meus sonhos, a não abrir mão das coisas e das pessoas que amo, a defender meus valores e a minha missão de vida, a saber chamar atenção das pessoas para os erros delas e ajudá-las a melhorar, a deixar o orgulho de lado para me tornar uma pessoa melhor, para pedir perdão pelos meus erros e para pedir uma nova chance para o amor da minha vida.

Há lições melhores?

Obrigado Jane, pela ajuda. Obrigado Thais, pela confiança.

 
Fabio
Fabio
Eu sou criador de conteúdo, curioso sobre tudo e especialista em pesquisar no Google. Sou um historiador, um professor com doutorado e anos de experiência na criação de conteúdo para as áreas acadêmicas e de marketing, incluindo livros, artigos para web e posts em mídias sociais. Eu gosto de fazer as coisas acontecerem e de liderar pequenas equipes por influência para alcançar grande sucesso. Eu criei o projeto Spirito Sancto, que torna a História mais acessível, e uma editora para autores independentes. Eu também sou escritor, com um romance premiado chamado Beije-me em Barcelona e vários livros de História.

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